sexta-feira, 10 de julho de 2015

A EVENTUAL ENTRADA DO “YUAN” E A CRISE DA BOLSA CHINESA


1.  Esta manhã, quando me dirigia à Universidade, o meu filho Nelito ligou para mim, não só para me saudar e saber como tinha passado o dia de ontem, como também para pedir-me opinião sobre a possibilidade de o “Yuan” - a moeda oficial chinesa - vir a ter livre curso em Angola.

 
2.  A questão de uma eventual livre circulação do “Yuan” no nosso país começou a ser colocada aquando da visita de José Eduardo dos Santos à China. Esta e outras questões tornaram-se, pois, tema de debate, tendo mesmo ocupado largos espaços nas redes sociais, muitas vezes envolvidos em grande emotividade. É sempre salutar que os cidadãos se preocupem com a sua economia e a sociedade. Nada disso se deve ver com “subversivo”.


3.  É evidente que, pela complexidade do assunto, tratá-lo de forma séria e profunda requer espaço adequado e tempo bastante, pois não se trata de um assunto linear e apenas com implicações de curto prazo. A entrada de mais uma moeda forte no mercado do nosso país tem repercussões estruturais que não podem ser negligenciadas.


4.  Para encurtar caminho e ao mesmo tempo procurar satisfazer a curiosidade do meu filho Nelito, lá lhe fui dizendo que, a ser verdade aquilo que já se comenta, teríamos então 4 moedas a circular na nossa economia, mesmo que uma delas - o “Euro” - seja quase sempre procurada por quem pretende sair do país com destino ao espaço da EuroZona. O “Dólar” é aquela que mais circula na economia internacional.

 
5.  O “Kwanza”- a nossa moeda oficial - e o “Dólar” - a moeda norte-americana - são dominantes entre nós, e o “Yuan” passaria então a rivalizar com elas, com forte probabilidade de se vir a afirmar no mercado, dado o volume das transações que o nosso país realiza com a China, que tendem mesmo a aumentar com o incremento dos acordos comerciais e financeiros.


6.  O meu receio, porém, é que o “Kwanza” venha a perder competitividade, pelo facto de a moeda chinesa ter um suporte administrativo muito grande, o que faz que ela seja hoje um dos principais cavalos de batalha, no relacionamento económico entre a China e as autoridades norte-americanas e europeias. É que a moeda americana e a europeia têm o seu valor relativo definido pelas regras do mercado, o que não sucede com a moeda chinesa, livremente manipulada pelas autoridades chinesas, provocando desequilíbrios.


7.  Se a moeda chinesa tiver livre curso em Angola, a tendência natural será as empresas chinesas aqui instaladas transacionarem em “Yuan”, e não em “Kwanzas”.

 
8.  Os angolanos que compram produtos na China – e não são poucos – procurarão também acumular “Yuans”, para mais facilmente realizarem as suas transações naquele país. O “Kwanza” estará, pois, a competir com uma moeda demasiado alavancada pelas autoridades do seu país, um país que possui das mais elevadas reservas internacionais do mundo.


9.  Foi isso o que eu disse ao meu filho Nelito, ele que é, tal como eu, muito atento aos fenómenos internacionais, quer políticos, quer económicos, quer sociais. O que me dá orgulho.

 
10.                Tão logo acabei essa conversa, surgiu a notícia de que a China estaria a viver uma situação de “crash” na sua Bolsa, com um afundamento em 32% da “Bolsa de Xangai”, apenas num mês, facto que levou a suspensão de 75% das empresas cotadas nessa Bolsa.


11.                Diz-se agora que a actual situação na China faz recordar aquela que se viveu nos EUA no ano de 1929, quando rebentou a “bolha especulativa” que levou ao fenómeno que ficou para a história com o nome de “A Grande Depressão”, antecedente à instalação do fascismo e do nazismo na Europa. E à “caça às bruxas”, nos Estados Unidos.

 
12.                A presente “bolha especulativa” na China é vista nos seguintes termos por um analista financeiro internacional: “Tudo aconteceu pelo facto de uma significativa parte do mercado ter investido com recurso à “leverage” (alavancagem), uma opção que em casos de inversão rápida da tendência, tipicamente implica fortes variações, quando as posições de investimento são fechadas abruptamente”. Ou seja: o mercado bolsista estava a ser estimulado por margens bastante atractivas, aliadas a um crédito fácil, o que conduziu a uma sobrevalorização dos activos”. Até que a “bolha” estourou.

 
13.                O “crash” da Bolsa chinesa, já visto como um verdadeiro “tsunami”, está a afectar em cadeia uma série de empresas, um pouco por todo o mundo. Está, inclusive, a perturbar o mercado das matérias-primas, de que a China é o principal cliente mundial.


14.                As autoridades chinesas buscam agora soluções imediatas para esta crise como, por exemplo: impedindo a venda de acções por accionistas qualificados, suspensão de novas entradas na Bolsa, injecção de liquidez, criação de um fundo apoiado por vários intermediários financeiros, e até compras por parte de fundos de pensões do país. Medidas que ainda não produziram os efeitos esperados. Temos, pois, aqui, conversa para prosseguir e sobre a qual devemos reflectir.

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